25 de mar de 2008

Diante da tela em branco, pensamentos multi-coloridas.
Cores que não vão definir-se, não vão entregar-se.
Não vão ceder e virar coisa. Cor é cor. Coisa é coisa.
Cores que são cores e não pedaços em uma tabela de cores.
Cores que colorem o que se falta saber. Cores que não pintam precisão (e nem por precisão). Cores que pintam o porquê e o talvez.
Porque cores, cores são. Isso eu sei e já entendi. Mas e a vida? O que é? E amar? É viver? É calar? É engolir a seco o sangue (que deve ser vermelho) que queima na garganta? Já ouvi alguém dizer que um bom amor é de fazer gritar. Eu calo. Não compreendo, mas não sei amar de outro jeito. Eu calo. E cores vem até mim e pintam um cenário de cinzas indizíveis e inimagináveis (não tentem imaginar!). E quando o amor vira cor? Sei de quando o amor não é mais dor, mas é cerveja no bar. Sei que é pior quando o amor vira risada de botequim, alegria de festim.
Chamadas ignoradas, noites inacabadas, filmes chorados na última solitária poltrona do cinema. O cinza começa a esbranquiçar e já não se diz mais "amor".
Se fala de sexo e ele muito se faz. Se fala de amizade e muitas risadas se dá... mas as cores multienloquecidas já foram e ninguém quis voltar para pintar o espaço que faltou nesse quadro. E o espaço toma vida e domina. Cresce, e cobre até o cinza.
Não há falta, não há dor. Mas... sabe aquela sensação, justamente aquela sensação da cor branca, fica. A cor branca, que é a união de todas as cores, que significaria aquela alva limpeza, que pareceria dar nova chance... dessa vez desbota a graça, e fica o vazio, a mistura de todas as cores, de quem quis tudo e teve o branco.

11 de mar de 2008

Como pedra branca no fundo do poço
dentro de mim está uma memória.
Nem quero afastá-la, nem posso:
é sofrimento e é prazer e glória.

Anna Akhmátova
Trancafiada no quarto nas primeiras horas da manhã, ela pensa. Pensa na noite boa que teve, no dia ocupado que terá. Nas noticias do jornal, nas reuniões de departamento, nas conversas nos corredores. Tudo trivial, mas tudo seu.
Tem coisa que irrita! Claro que irrita, mas melhor nem pensar agora. São só 6 horas da manhã.
Um banho quente, uma roupa que represente o papel de hoje, uma maquiagem que tranborde a segurança pressuposta em uma mulher como ela é. Sapatos firmes pisando o chão. Atravessa passo a passo o pequeno quarto, pega as chaves e um iogurte na cozinha, sai pela porta da sala. Tranca a porta. É a sua casa, e isso sempre lhe fora essencial.
Vai de carro à Universidade, confere se as aulas certas estão em sua pasta, muitos alunos esperam por suas palavras e experiências.
Saiu de casa cedo para evitar atrasos. A verdade é que uma mulher jamais deve chegar atrasada, por que sempre existe um colega para brincar, dizer que foi culpa da maquiagem... Ela não gosta desse tipo de graça em seu trabalho: trabalha a vida toda com seriedade e maturidade, pensa que tem uma bandeira machista a fazer cair todos os dias. E todos os dias enfia seu salto agulha nas impressões erradas. Sua modernidade, sua facilidade de ver a vida e sua solidão sempre compuseram seu estilo de ser. Sua dedicação e trabalho árduo sempre foram referência na Universidade e em todos os lugares onde ministrava aulas. Sua formalidade e competencia sempre impressionava, aliadas a sua beleza já crescida. Não era uma garota, beirava os 30. Podia dizer-se mulher.
E hoje, como sempre, saiu cedo de casa para evitar atrasos, mas o trânsito intrasitável de São Paulo não permitiu que a Av. Dr. Arnaldo fosse atravessada como devia e o relógio não a esperou. Já havia se passado 20 minutos do início de sua aula e ela não estava sequer perto de chegar. Pegou seu celular (que anda tão esquecido dentro da bolsa) e ligou para a coordenação. Não chegarei a tempo... acho que não chegarei hoje; passem exercícios de tradução aos alunos do 2 ano e de leitura aos do 3o; não contem comigo hoje... passem notícias por e-mail.
De repente sua manhã estava livre. Que estranho, no carro sem ter para onde ir. Poderia voltar pra sua casa, mas logo lembrou-se das provas por corrigir e, pela primeira vez, decidiu que não iria trabalhar hoje. Não iria ler ou escrever. Não ia ver filmes ou conversar com quem tivesse algo a lhe acrescentar. Hoje queria diminuir.
Fez o primeiro retorno que viu e seguiu placas para um lugar que não conhecia. Ao se perder, completamente, parou em uma padaria. Desceu de chinelos do carro (afinal, uma mulher prevenida sempre tem uma alternativa ao salto alto ao dirigir). Parou no balcão, pediu um pingado, um pão na chapa e sentiu-se em casa. Enquanto sorvia o quente café e esperava um pão molhado de mantega pôs- se a parar de ser quem era.
Respirava funda e longamente como se esticasse seus pés na areia da praia. Pensava na praia, nas vezes em que, criança, ia nadar com os primos. Nas vezes que, já crescida, ia aos luais no Guarujá. Lembrou-se dos amigos do colégio e foi sentindo emoções voltarem. Sabia que era perigoso, sabia que emoções contidas a anos, quando voltam, voltam grandes. Desviou o olhar para a tv do estabelecimento. Seus olhos cruzaram com um casal. Imediantamente olhou para baixo e deparou com as mãos apoiadas em seu colo: não havia nelas qualquer anel, ou sinal de anel, não havia pra elas qualquer companhia que não fosse feita de papel e imediatamente sentiu-se só. Uma solidão profunda como sentiu há anos e há anos a evitava. Sentiu dentro de si uma memória. Uma história que virava várias e se fazia e desfazia em laços e se formava em outros. Uma confusão, sua vida.
E então sentiu gozo em lembrar. Lembrou do namorado do colégial, das primeiras brincadeiras perigosas e da forma como se lançou nova de mais num coração que não lhe pertencia, um coração que pertencia à juventude, à imaturidade. Lágrimas lhe escorreram ao lembrar da dolorosa separação. Mas logo outras lembranças surgiram, outros encontros romanticos, almoços em família (nossa, por onde andarão minhas irmãs?), dias com amigas no shopping e coisas de menina-moça. Lembrou-se da tensão do primeiro ano de faculdade e logo lembrou-se do primeiro ano no colégio. Roupas e filmes coloriram seu passado. Havia tanta dor nas memórias... mas nunca sentira-se tão plena. Viu-se recebendo flores e gritando na rua. Lembrou-se de como era tempestuosa e como, sem saber bem, domou-se de vez. Sentiu-se ornada pelo passado, como uma coroa, mas de espinhos. Dor e glória de ser alguém além de professora. Viu-se além do que suas conquistas profissionais lhe mostravam. Viu-se mulher e sentiu prazer. E sentiu solidão e sentiu que queria amar. O padeiro, o rapaz com aquela moça, o homem que acabou de entrar na padaria: precisava amar. Possui e ser possuida. Seus instintos selvagens e retrógrados voltaram. Desejou um lar e saber cozinhar.
Comeu o pão. Bebeu o café com leite. Novamente respirou com profundidade e esticou os pés, dessa vez no chão da padaria. Voltou a si. Mas diferente. Como uma viagem feita pelo mundo, voltou-se refeita da viagem interior. Conheceu-se como nunca, deu-se tempo para si. Voltou para casa.
Lá chegando, procurou antigas fotos, encheu porta-retratos. Fotos velhas e novas, gente viva e morta, amores antigos e inimigos. E, agora sim, ao acordar a cada dia, terá motivos para levantar, para pensar e agradecer. Agora sim ela sabe o que é ser rainha de si.