28 de ago de 2008

Sr. António.

Mas um dia frio de agosto começa com o despertador tocando a hora de levantar. Hora de tomar banho, arrumar o ralo cabelo e pegar a mochilinha. Hora de ir para escola. Todos os dias são assim. E interessante pensar que ele ainda lembra do primeiro dia, do medo e da vontade de fugir toda hora, cada vez que o vento abria a porta da sala.
A caminhada até a escola ñ era curta e ele fazia sozinho uma parte, mas quando mais próximo, encontrava alguns coleguinhas e iam saltitando.
Sentaram cada qual em sua carteira e todos estavam estranhando a ausencia do professor. Por que ele ainda ñ chegou?
Mas, claro, que o silencio da dúvida durou só o tempo de algum moleque perceber que era a hora exata de começar uma guerra de papel amassado. Na escola, tudo vira diversão e todos riem.
Não todos. O garoto que vimos acordar está sentado, parado. Olha a bagunça e não entende bem o que se passa. Vocês não estão vendo? O professor não está aqui! Não está aqui!
O silencio desse garoto começou a invadir a bagunça de todo o grupo e rapidamente todos entederam que aquela situação não poderia estar certa. Pelo o olhar de cada criança era possível ver a interrogação assustadora, cheia de temor do mundo. Passados alguns segundos desde o silêncio geral, aquela criança que começara a confusão de papel já chorava. Um clima de dor estendeu-se no ar.
Estavam sozinhos na sala de aula. A lousa estava completamente em branco... de repente já ñ se viam mais como amigos e as diferenças e entre cada uma das crianças pareceu maior. No meio do silencio, se entreolhavam. Aquela sensação de união sumira e já não eram mais uma turma, e sim crianças diferentes enfiadas num quadrado. Cada um se sentiu só. Da sua forma, sozinhos.
Entra então uma senhora que as crianças nunca haviam visto e isso temorizou mais ainda nosso coleguinha do começo da estória, afinal, ele não se sentia bem diante de mulheres, com excessão de sua mamãe, mulheres eram misteriosas e pintavam a boca para chamar a atenção (e isso não faz sentido algum!). Essa mulher de boca vermelha entra na sala com os olhos vermelhos.
Os meninos se levantam em reverencia. Ela os perimite sentar. Os meninos olham com vivacidade. Ela chora. Algumas crianças choram. Não se entende nada.
Ela abre a boca e tenta dizer. Não consegue. Tenta de novo, não consegue. Então, nosso pequeno rapaz se levanta e pergunta: mas onde está o sr. António? Ela cala. Ele diz: Ele se foi? Ela chora. Ele entendeu. Ela diz que hoje não haverá aula. Ninguém comemora, ninguém sorri.
Nosso menininho sai correndo da sala. Corre e pula. Quer alcançar o sr. António, quer aulas de matemática, quer aprender a voar.